Tres poemas de “Plegarias para insomnes” [PORTUGUÉS]

(Imagen: Il Lee)
Prece de mulher sem língua
um batimento da alba nas flores
abandona-me ébria de nada e de luz lilás
ébria de imobilidade e de certeza
Alejandra Pizarnik
Ébria que não, que da luz não. Ébria e salmodiada pela noite não. Os pássaros mais negros da minha boca e as facas não, que da morte não. Todo o silêncio e o gemer de oboés, a rapariga prostituta na minha janela, o musgo entre os dentes não. O canto tremebundo de cigarras não, a profundeza não. Eu arrasto este pedaço de língua entre palavras mudas que já não, que choram porque não. E é esta minha prece, esta minha mais doce imprecação: a da dor que não.
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De outro céu
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É levíssimo murmúrio o grito. No côncavo de minha boca um beijo lírico arrasta-se e umedece-me o canto. Como te falar daqui se mutilaram cada membro da minha voz? Como te recordar que nas mãos levo um mapa e uma bússola para ver se me extravio-me desta minha loucura de sem ti? Como, se teu corpo está tão longe do meu abismo, ali onde o vejo e não o toco? Como, se no teu céu há meninos pecadores e pássaros sem chuva e no meu borboletas que esqueceram que voavam, migas de libélulas e nuvens choradoras? Talvez se me encher o olhar de silêncios, se me arrancar as antigas cicatrizes e ornamentar a tua tristeza com o fio das minhas veias, talvez se amarrar os estilhaços da língua ao arco dessa viola que esqueceste. Só assim sepultarei todos os barcos. Só assim renascerão os jacarandás.
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XIII
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Um trinar de luas vai ressuscitando línguas em minha boca. Cansada de veneno e de cinzas, amanheço sobre o cais dos solitários, dos doentes, dos vencidos. Daí lavro a minha pélvis com a pétala de um barco que há tempos naufragou, vou cosendo-me as vértebras, recordando no dia em que nua e em chaga vomitei esmolas, mastigando o tempo do uivo e a cor da asma, urinando os ossos. Minha voz não diz nada, só geme, murmura o abandono das penas e o mendigo. Minha voz não diz nada, é um sopro que me amolece os pulmões e a traqueia, é a mosca fértil, o ferido peixe que me navega os vestígios da tarde. E não me diz nada.
Del libro de DCJ, Plegarias para insomnes, Editorial Praxis, 2008.
[Versiones en portugués de Gladys Mendía, con revisión de Alberto Augusto]
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Acerca de DANIELA CAMACHO

México, 1980. Poeta y traductora. Autora de los libros 'Experiencia Butoh' (Amargord Ediciones, España y Cosmorama Edições, Portugal, 2017); 'Lantana' (Ejemplar Único, España, 2017); 'Carcinoma' y 'Híkuri' (Libros de artista, Artes de México, 2014) e '[imperia]' (Editorial El perro y la rana, Venezuela, 2013); entre otros.
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